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O Último Dia: A Intensidade de uma Vida que Pulsava

  • Foto do escritor: Renata Robazza
    Renata Robazza
  • 1 de jul.
  • 4 min de leitura
Luca e a Guitarra
Luca e a Guitarra

Se existe algo que define o meu Luca, é a intensidade. Ele não passava pelos lugares ou pelas vidas das pessoas de forma morna. E o seu último dia de vida, em uma semana cheia de movimentos, foi o reflexo exato do jovem vibrante, focado e profundamente querido que ele era.


Luca cursava o segundo ano do ensino médio na escola da "vó" Marielza, da tia Roberta e do Ícaro — uma verdadeira família postiça para nós. Aquela escola carrega uma história bonita, que quase foi nossa em sociedade, mas que o destino quis que fosse o legado da Marielza, uma diretora aposentada, experiente e muito respeitada, que eu tenho como uma mãe adotiva. Ali, o Luca estava em casa.



Naquela manhã, ele saiu de bicicleta, no seu ritmo de sempre. Se a padaria mais tradicional da cidade não tivesse fechado as portas depois que os herdeiros desistiram do negócio, o Luca certamente teria feito sua parada sagrada para comer um pão de queijo. Mas seguiu direto. Chegou atrasado, como era seu costume, e a primeira coisa que fez foi dar aquele beijo cheio de afeto na "vó" Marielza.



A manhã correu normal. Ele assistiu às aulas e brilhou na de matemática, a matéria que ele tanto amava. No intervalo, o pátio ganhou a alegria dele. Com seu tamanho grandalhão (com certeza mais de 1,98), ele corria atrás das meninas menores jogando pique-pega — uma provocação mútua e divertida que já durava dois anos, desde que elas tinham entrado no período da tarde.


Depois da brincadeira, o foco do Luca se voltou para o futuro. Passou o resto do intervalo tentando convencer seu melhor amigo, também chamado Luca (apenas três meses mais velho, mas que por ter nascido antes de julho já estava no terceiro ano), a prestar engenharia ou qualquer curso em São Carlos. O plano do meu Luca já estava traçado na mente: os dois morariam na mesma república onde o irmão mais velho, Enrico, já havia morado e onde a vaga dele já estava garantida.


Para realizar esse sonho, ele não poupava esforços. Sabia que a redação era seu ponto fraco, então entregava cinco textos por semana para o professor. Mais do que aluno e mestre, eles eram amigos; dividiam o amor pela música e tocavam guitarra juntos — uma guitarra que o Luca tinha comprado com o próprio dinheiro de trabalho, escolhida a dedo em uma live com a ajuda desse mesmo professor.



Ao fim das aulas, ele voltou para casa. Minha filha, Pietra, já o esperava para irem almoçar juntos no self-service de sempre, de amigos da família. Depois do almoço, Pietra foi para o quarto estudar, e o Luca em seu quarto, em meio a papelões recolhidos durante dias, cola e tinta, recebeu os 3 melhores amigos, companheiros desde o jardim de infância, para finalizarem o projeto da Feira de Ciências.



A escolha daquele tema era a prova viva da liderança e do caráter do Luca. Dois meses antes, a turma ainda estava sem ideias. O coordenador Franco — pai do outro Luca e meu amigo de infância — sugeriu uma lista de temas, e a sala escolheu homenagear Ayrton Senna. O meu Luca foi contra veementemente. Ele sabia que nós, os pais, tínhamos condições de ajudar muito nessa produção, já que os produtores da série do Senna são simonenses e nossos amigos. Seria o caminho mais fácil, mais vistoso.


Mas o Luca queria propósito. Ele bateu o pé e defendeu que uma campanha contra as drogas era um tema infinitamente mais importante para a sociedade. Ele foi de um por um, conversando com os colegas, usando bons argumentos, e convenceu a turma toda a mudar de ideia. Naquela tarde, eles trabalhavam duro na réplica de um avião que representaria o tráfico de drogas no Brasil. Afinal, todos os anos, era o Luca quem organizava e produzia as melhores exposições da feira.


Eles trabalharam, jogaram um pouco de ping pong na mesa que tínhamos acabado de adquirir, e o Luca se despediu dos amigos dizendo que tinha um compromisso.



O fim daquela tarde trouxe o silêncio que ninguém esperava. Luca mandou uma mensagem para a namorada no WhatsApp. Ela, ocupada com um trabalho de escola, não conseguiu responder na hora. Quando respondeu, o Luca já não estava mais lá para visualizar. Preocupada com a ausência incomum, ela acionou a cunhada, minha filha, que por sua vez pediu ao namorado que avisasse o Luca sobre as mensagens.


Por volta das 17h30, o mundo parou. O Luca foi encontrado. Houve tentativas desesperadas de reanimação, o SAMU foi acionado, e o destino quis que, ao chegar à Santa Casa, quem estivesse no plantão fosse o próprio padrinho dele. Mas, apesar de todo o amor e de todos os esforços, nada mais pôde ser feito.



O Luca não foi o seu último segundo; ele foi cada um dos dias intensos que viveu antes dele. Ele foi o menino que moveu uma sala inteira por uma causa justa, o amigo que planejava repúblicas em São Carlos, o irmão companheiro de almoço e o filho que nasceu vencendo e partiu deixando uma marca indelével de liderança, amor e luz em todos nós.




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